quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009

Até para o ano

Não gosto de fazer balanços de final de ano. Limito-me a enumerar alguns acontecimentos, já alguns deles relatados por aqui, sem grande pretensão de registo fidedigno. Foi um ano conturbado, para não dizer atípico. Um ano de mudanças pessoais profundas, daquelas que deixam marcas, que nos forçam às rugas; o que se chama levar porrada da vida. Tento dissecar do lixo as coisas boas que possam perdurar. Não me considero infeliz, nem afortunado. E talvez sejamos sempre ambas as coisas. O Janeiro foi um mês febril de ansiedade. Concluíam-se os trabalhos do meu romance A Casa do Esquecimento, prémio literário Fnac/Teorema 2008; trocando mail’s com Fernando Mateus que fez a capa, e com a editora, em ajustes finais. Em Fevereiro aconteceu o lançamento. Tive o privilégio de ver o meu livro nos escaparates – termo de escritor ambicioso e ainda com sonhos – em destaque nos plasmas das lojas Fnac, em páginas inteiras de revistas e jornais, como um the next big thing que nunca chegou a ser desde o início. Entrei numa engrenagem nova, mas ofensiva. Dei entrevistas, fui à televisão por duas vezes, toquei em directo no canal do estado, entrei no top (num mísero 12º lugar de vendas da querida loja do Chiado). Depois começou o declínio (leia-se o discernimento da realidade em si), e pouco consegui escrever nos meses seguintes. Refugiei-me nos amigos. Na Trama, quase uma segunda casa. Mais do que uma casa, um lugar catártico onde foi possível conversar sobre tudo, aprender, nivelar as expectativas, silenciar-me, provocar risos. Solidifiquei laços de amizade que se tornaram futuras bússolas para os momentos menos bons, e sempre mais constantes. Enumero o Sérgio Maciel, o Jorge Fallorca, a Cristina, o casal Alvim, o Ricardo e Catarina, o João Mota, a Francisca, o Tiago, a Anita, o Rodrigo e a Sara, a Sónia, a Anabela, a Inês Leitão, o Magalhães; entre tantas outras pessoas… Iniciei finalmente um novo romance, que viria a abandonar na traumática página 50. Iniciei outro que viria a abandonar na página 20. Compus algumas das minhas melhores músicas. Dei concertos, pela Trama, na Fábrica Braço de Prata, na Intensidez em Évora. Vendi discos e livros. Dei autógrafos. Uma figura ridícula, diga-se, para quem afinal já não era capaz de escrever. Mas mantive-me na decisão tomada. Registo com alegria a terna harmonia com a minha antiga família, algo que me comove a todo o instante. A Patrícia, mãe do meu filho, agora uma amiga incondicional. Os seus pais sempre presentes e dispostos a ajudar. No Verão, sem viajar para o estrangeiro, limitei-me a andar por aí, sozinho, entrando e saindo de museus e exposições a uma velocidade irrepreensível. Mas o Verão trouxe o grande golpe, com telefonemas para Espanha, a tentar encontrar nas palavras do meu irmão, as secretas más notícias que se adivinhavam. Um cancro, a sua operação, ele distante, eu deste lado a tentar perceber realmente a gravidade das coisas. Fintou o destino, esperamos, bastou vê-lo a gargalhar no dia de Natal, sem sequer perder cabelo com a quimioterapia que em breve termina. Do inferno ao céu. Eu não aguentei a pressão. Entrei numa universidade do estado para tirar Línguas e Literaturas. À terceira semana de aulas estava de rastos, entre estudar, estar com o meu filho, trabalhar e tratar da casa, coisas que nunca aprendi a fazer sozinho. Em Setembro senti os primeiros sinais de cansaço, os primeiros ataques de pânico. Em Outubro comecei a ser visita regular nos hospitais particulares, nas clínicas, sempre convencido que estava prestes a ter um ataque cardíaco. Eram os primeiros sintomas de uma depressão que me prendeu em casa durante todo o mês de Novembro. Voltei ao cimo com medicação, um tanto desconfiado. O meu pai sempre presente a acudir os dois filhos; a tirar-me da cama praticamente nú, arrastando-me para centros de saúde, a passear comigo, a viajar até Espanha, visitando o meu irmão. Um grande homem e companheiro, de quem nem eu ou o meu irmão conhecíamos esse lado humano. Ainda ontem voltei ao hospital, com pontadas no peito, e novas crises de ansiedade. Não foi um ano bom. Não foi um ano mau. Foi um ano de vida dura e crua. Da massa indefinível que nos molda e refaz a cada dia. Um ano de dúvidas, incertezas, receios, esperanças, desilusões. Às vezes sinto que dou demasiado de mim neste blog. Ou que ele se torne, na via pública, num meta-notebook, incapaz de chegar às outras pessoas. Mas prossigo. Cansado, exausto, reticente. Mas prossigo. Porque se há frase que mais goste de dizer, é a de Ficar Até Tarde Neste Mundo.

sábado, 26 de Dezembro de 2009

Apontamentos - 28

O escritor é um ser estranho, pensa. Porque também chora. O acto de chorar para si só ocorre muito raramente. São precisas duas esferas de sentimento que o levem ao choro. Nunca convulso, diga-se; apenas o escorregar de lágrimas pelo rosto, os olhos inchando para as conter, as mãos abertas a secar uma, logo a seguir outra. Na verdade, o escritor só consegue chorar pelo misto de tristeza e alegria. Só assim o consegue fazer. Há muito que se ensinou a não chorar de tristeza. Há muito que a alegria não lhe acontece para que chore. E assim, só quando as duas emoções milagrosamente se unem, ele finalmente cede, perde o controlo, deixa-se levar. O escritor chorou duas vezes em dois dias. Seguidos. Chorou na véspera de Natal, quando chegou a casa, e vendo-se sozinho, resolve abrir a prenda do seu filho. Uma lembrança feita de propósito para si. Um pequeno calendário de secretária com as fotos dele, escolhidas pela mãe de forma dedicada. E esta forma dedicada despertou-lhe alegria, e a ausência na sua casa, a condição que ele próprio escolheu para si; despertou-lhe a tristeza que faltava para levá-lo ao choro. Não se ficou por aqui. Logo no dia seguinte, a caminho da sua família, seguindo pela A5, chovendo impiedosamente, acabou por chorar novamente. A auto-estrada estava a meio dos seus dois mundos. Deixava para trás a sua família, o seu filho, para ir ter com a família de sempre. O escritor nestes momentos pensa em tudo, principalmente nas pessoas que vai ver; no irmão que vence um cancro; no pai companheiro nos momentos difíceis; na mãe silenciosa por já não saber como lidar com o escritor. Novamente, a mistura violenta de alegria e tristeza o obrigam ao choro, em plena condução, debaixo da chuva, ao som de Patrick Watson. Recomposto finalmente, liga a um amigo. Ao seu melhor amigo. Ele espanta-se, porque sabe que o Natal para o escritor não significa nada. Mas afinal descobre que assim o não é. Porque o Natal representa para o escritor a união de dois sentimentos, o desfasamento de duas famílias; entregando-o a um espaço indefinível, que é onde ele vive. O escritor chora. E se chora, é porque também sente.

quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009

Ficções - 27

Suspensos no tempo, os amantes quebram as próprias regras. A cidade lá fora persiste num rumor contínuo. A noite oscila entre as horas, no esquecimento do espaço em volta. A poesia, registada numa fracção de segundo, inunda os olhos. Sempre em silêncio, projectam-se as imagens de um futuro impossível, de algo que se sabe nunca viver. Há uma comoção neste abandono, na iminente desacreditação de novos dias. O escritor segura a imagem. Absorve a relutância de prosseguir. Não quer prosseguir. O escritor sabe que se prosseguir haverá outra noite lá fora, uma cidade diferente que não conhece, um medo novo com o qual se terá de defrontar. O escritor fixa a imagem já como alguém que segura a última corda. A última mão estendida da multidão em fuga. E evita o relógio. O tempo está suspenso, pensa, enquanto o som do carvão incide na folha vegetal. Segue o movimento da mão, a dança da mão, e todo ele sabe que as horas o chamam. Aquela mão é a sua mão a escrever. O projecto, um livro que se abre aos seus olhos.
«Ajuda-me aqui.»
O escritor desperta-se da fátua concentração.
«Ajuda-me aqui», voltou a pedir V. levantando a cabeça.
O escritor permanece quieto, apurando o ouvido no ruído dos últimos carros da noite.
V. fixa-o com curiosidade.
«Deixa-te estar, ou sai de uma vez», acaba por responder, vendo-o imóvel.
O escritor tem livros para escrever. Vidas para conhecer. O escritor não quer o tempo parado, nem segurar a última corda da multidão. O escritor prossegue.
Levanta-se finalmente, vira-se para a janela aberta. Dez segundos mais tarde volta a olhá-la, longínquo. Sempre distante, acaba por se deitar no chão, à sua frente. Não a ajuda. Apenas precisa de cristalizar o momento para uma futura memória. Antes de sair, leva os dedos ao cabelo de V., que acaba por baixar a cabeça.

terça-feira, 22 de Dezembro de 2009

Apontamentos - 27

No outro dia alguém me disse que eu devia fumar cachimbo. Possivelmente confundida com a minha imóvel posição, o olhar pensativo perdido num horizonte distante, o cofiar de barba inexistente, a pessoa reafirmava que fumar cachimbo teria a ver comigo. Respondi-lhe calmamente que já tinha fumado cachimbo, em tempos, na minha curta vida. Estudava piano na Academia, e lembro-me que andava a tirar a carta. Teria portanto dezoito anos. Os meus cabelos chegavam-me aos ombros, desalinhados, e usava uns óculos com armações redondas, que certamente me dariam um ar de peace and love de levar ao riso. Vestia-me de preto e usava sempre um lenço negro que enrolava ao pescoço mesmo no verão. Ouvia Frank Black no entusiasmo de perdurar a magia dos Pixies, na altura acabados, e sentava-me muitas horas em esplanadas, fumando e escrevendo. Lembro-me particularmente de uma madrugada de passagem de ano, na ilha do Baleal, em que invadimos um apartamento vazio do tio de um colega. Na varanda, ouvindo o mar revolto, fumava o meu cachimbo comprado na Rua do Arsenal com a nostalgia do que ainda não tinha vivido. Sofríamos muito. Éramos um grupo de amigos deprimidos, inconstantes, imprevisíveis. Mas naquela varanda, resistindo ao frio e ao vento, conseguíamos estar quietos gozando os fumos e os últimos copos de vodka limão. Depois alguém ocupava os quartos, fazendo aquele pacto maravilhoso de passar as doze badaladas a badalar uma ou duas. Na varanda, íamos rindo, se por acaso um gemido chegava até nós e fazíamos alguns comentários arcaicos, dignos de marialva. No regresso de Peniche, entrámos num autocarro para Lisboa, mortos de cansaço. Numa paragem em Torres Vedras, entrou uma rapariga que se sentou mesmo atrás de mim. Tinha o cabelo escuríssimo e os olhos de um azul vítreo. Trazia nas mãos alguns livros e cadernos. Os meus colegas olharam-me em desafio. Olhei para trás, ela levantou a cabeça e sorriu. O cachimbo estava arrumado na mochila, neste momento. Virei-me para a frente. Os meus colegas voltaram a espicaçar-me. Virei-me para trás e pedi-lhe uma folha do seu próprio caderno. Ela estranhou, mas lá rasgou das argolas de um caderno uma folha de papel quadriculado. Pedi-lhe ainda uma caneta emprestada. Ela inclinou a cabeça para um dos lados, estudando-me, até que por fim se decidiu abrir a sua mala e retirar uma caneta de um estojo com fecho. Agradeci e voltei a sentar-me. Escrevi um poema em alguns segundos, o número do meu telefone de casa (ainda não havia telemóveis, muito menos emails) e entreguei-lhe tudo, agradecendo a folha e a caneta. Sentei-me virado para a frente, esperando a qualquer momento uma reacção sua. Os meus colegas riam de felizes, queriam era espectáculo, e eu estava sempre pronto. Quando chegámos a Lisboa ela desapareceu do autocarro, sem nada dizer. Passados três dias ligou-me para casa. Chamava-se apenas Maria, vivia no Rato, com várias colegas de faculdade, numa casa enorme de várias assoalhadas. Subíamos à Estrela e andávamos pelo jardim aos beijos. Tinha um perfume quente que nunca mais cheirei. Às vezes os dois odores misturavam-se. O seu perfume com o do tabaco caramelizado do meu cachimbo e sorríamos meio tontos com a nossa história, inventada numa folha de papel e uma caneta emprestada, num dia 2 de Janeiro de qualquer ano. Respondi à pessoa que já tinha fumado cachimbo, e por breves instantes, eu estava naquele autocarro, no Rato, no Jardim da Estrela, num apartamento enorme na Rua do Salitre. Passei as mãos pelos meus cabelos curtos, avaliando a passagem dos anos como se ainda estivesse sentado na varanda da ilha do Baleal, ouvindo o mar, sofrendo pelo tanto que ainda não tinha vivido.

peixe : avião - a espera é um arame from peixe : avião on Vimeo.

segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009

Apontamentos - 26

Deixa-me explicar-te a normalidade dos dias. Escapas ao óbvio, ao que esperam de ti. Tu não suportas que esperem algo de ti. És tu quem decide o que és ou o que fazes no momento exacto. E nunca um momento exacto teu está em sintonia com o momento esperado da outra pessoa. O fascínio do desconhecido, da novidade, mesmo que no gesto banal de aproximação, alicia-te assim à normalidade dos dias; à fuga permanente do previsível. Tu és quem evoca o dia grandioso de isto ou daquilo, do que decides partilhar, silenciar, provocar. Certamente, ao fim de pouco tempo, as pessoas que te rodeiam deixam de esperar por ti. Ao não corresponder ao conforto do que se pensa garantido, fintas uma realidade que afinal se descobre paralela. E quando decides incidir, quando o dia luminoso brota das tuas mãos como chamas que não consegues conter sozinho, já nada incendeias do outro lado. És perito no adiar. Lesto na fuga. Hábil na inconstância. Depois escreves. Porque ainda te resta esse espelho de descoberta. Tu próprio num revolto temporal de evasões.

domingo, 20 de Dezembro de 2009

Ficções - 26

O escritor estaciona o carro. É noite. Está tanto frio que o seu corpo percorre tenso as ruas da cidade, movendo-se apenas o necessário para conseguir andar. Vira uma rua, confirma o seu destino na placa numa das paredes. Adivinha o local quando observa uma porta aberta de um prédio antigo. Aqui todos os prédios são antigos. Sobe as escadas, confirmando-se no sítio certo à medida que ouve a aproximação de vozes em festa, da música, do tilintar de copos. Entra. Lá dentro está quente. Cumprimenta as pessoas, abraça, dá e recebe beijos. Senta-se ao centro da mesa. O escritor observa as pessoas que o rodeiam. Não apenas as mais próximas; todas as outras, mesmo as desconhecidas. Deixa-se ficar algum tempo a observar um casal que se beija interminavelmente. Sente uma paixão sólida entre os dois. Acaba por virar a cara. Alguém ao lado coloca a mão sobre o seu braço perguntando-lhe: «Estás bem?». O escritor quer responder que sim, que está apenas a ser escritor, a dar uso aos seus instrumentos de trabalho. E prossegue. Conhece novas vidas, solidifica laços de amizade, recebe convites para almoços, para novas festas. Deixa-se estar imóvel ao centro da mesa em silêncio e tem quase a certeza que está no centro do mundo. O escritor não vacila na sua solidão. Interpreta-a como uma fiel disponibilidade para os acontecimentos novos. Ele precisa desse espaço impenetrável que é o seu silêncio e o rumor humano que o sitia. Por vezes estabelece curtas conversas. Interessa-lhe os gostos das pessoas, o que ouvem, o que lêem, quais os pintores favoritos. Estranhamente não consegue alhear-se de si mesmo. As conversas retomam ao nicho silencioso que é o seu corpo fervendo de vida num espaço etéreo e imaginário. Desce à cave. A música acelera-se a um ritmo impossível de dançar. Tenta acompanhar; quer mover os braços, desalinhar a cintura com o tronco ou as pernas, não parecer um escritor a observar as matérias com que escreverá um texto no dia seguinte. E pensando no dia seguinte, sente que o seu tempo termina ali. Que tudo afinal parece estar pronto para o fazer prosseguir. Cruza novos diálogos com novas pessoas que o procuram. Diz quem é, o que escreve, o que tenciona nunca fazer na vida. A música é estridente, obrigando falar nos ouvidos das pessoas, e que as pessoas falem aos seus ouvidos. Este contacto por desconhecidos apazigua-o; possibilita-lhe uma nova crença na humanidade. Mas ainda assim, o escritor já não está ali presente. Sobe as escadas da cave. Desce as escadas do prédio para o exterior. O mundo congelado numa madrugada escura. Conduz com os olhos quase fixos num ponto inexacto à sua frente. Regressa a casa. Deita-se de imediato. Antes de fechar os olhos pensa em si mesmo. Um homem solitário que decide escrever um texto no dia seguinte. Adiando a vida.

sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009

Ainda sobre os ciclos